na gaveta
fui para a praia e sentei-me, longe da água, para poder observar os movimentos ao longo de toda a costa visível. uma pequena baía, com rochas dos dois lados a entrar pelo mar adentro. e o mar, imenso, calmo... iluminado pela intensa luz do meio-dia.
nem queria acreditar que, num dia de primavera como aquele, fosse eu a única pessoa na praia, mas nem sequer me dei ao trabalho de procurar uma razão para tal. apenas tentei uma abstracção total... não consegui. acho que, por muito que nos apeteça, não somos capazes de deixar de pensar, porque isso significaria pensar em nada e o nada já é alguma coisa. então, pensei no nada e quando me cansei, abri o saco e olhei para tudo o que tinha. um diário (nunca consegui arranjar-lhe outro nome, o que fazia jeito, pois só escrevia quando me dava para isso... mas já nem isso me interessava), cartas e textos de pessoas que me tinham marcado, curiosamente desaparecidas, doentes ou longe demais para poder estar com elas. também tinha levado a máquina fotográfica, aquela companhia que me permitia registar os momentos sublimes com os quais me deleito e que, posteriormente, sou incapaz de relembrar.
pintava e desenhava, mas naquele dia não levei tintas, nem pincéis, nem folhas vazias, nem caneta! tinha-me arrependido de ter acabado com as lições de piano, de modo que, ao que parece, tinha desistido das minhas próprias mãos. dava-me aflição só de olhar para elas e pensar serem impossíveis de voltar a tocar, e por isso de escrever, ou desenhar... ironicamente, tinha levado algumas pautas. músicas capazes de me fazer mergulhar no meu mundo e sonhar... sonhar muito. contemplei-as e soei todas as notas como se o piano fosse eu e querendo acreditar que duas mãos não conseguiriam tocar melhor que a minha voz (que importância tinham duas simples mãos, afinal?). a minha voz, porém, desafinava... levantei-me e continuei a cantar. dancei, dancei sem parar. dei voltas, muitas voltas. com os braços e a cabeça apontados para o céu, como era livre, eu! misturei-me com as luzes do pôr-do-sol e caí, de tão embriagada. voltei a levantar-me, mergulhei então os pés, cantei, rodopiei, mergulhei os joelhos, as pernas, cantei, as mãos, a barriga, cantei, os seios, os ombros, cantei, o pescoço, a boca, o nariz, os olhos, o cabelo, cantei, nadei, cantei, mergulhei mais ao fundo, cantei,nadei, nadei, às escuras, mergulhei sem parar, a sonhar,a cantar, a dançar.
acordei, pousada em plantas verdes e violeta, que se moviam lentamente com o vento...o vento? azul?! reparei então num peixinho amarelo a sair por um dos corais. corais? agarrei-me ao pescoço e tentei uma fuga ao impossível tornado possível, mas respirava mesmo... no fundo do mar! estava tudo tão puro, tão equilibrado, tão meu!
- olá! - virei-me, surpreendida. uma figura masculina olhava-me, calma, elegante. era azul, mas a julgar pela forma, humana, também. um rapaz. transmitia-me paz, paz como eu nunca sentira.
-olá... - respondi. mostrou-me uma fracção de uma fotografia. observei-a e consegui decifrar uma mão amarelada a apanhar um bocado de uma fotografia, entregue por uma mão azul. entrei em pânico por dentro, mas como as coisas começassem a parecer normais por mais estranhas que fossem, limitei-me a seguir a acção que aquela imagem me pedia. toquei-lhe no azul, suave, os meus olhos olharam os seus, imensos. um formigueiro percorreu-me dos pés à cabeça. comuniquei com ele, mas não falava, não escrevia... apenas sentia. ele, ele sentia-me também.
mostrou-me os seus textos, mostrou-me desenhos, mostrou-me fotografias tiradas por ele... por mim. mostrou-me cartas de pessoas desaparecidas, doentes ou longe demais para poderem estar com ele. mostrou-me pautas musicais e um piano. tocou. toquei. tocámos. e só então soltei as minha mãos. explicou-me que o mar exprimia o seu estado de espírito... e eu, que nunca o tinha sabido tão belo! explicou-me também que, em breve, eu teria que partir, porque alguém tinha criado cada coisa no seu lugar e, a julgar pelo nosso passado, ambos estávamos condenados a ficar sós... aceitei. entretanto, aproveitámos para passear. percorremos o fundo do mar, dançámos, cantámos, escrevemos, desenhámos, rodopiámos. e o mar, sempre calmo. reparámos, certo dia, que a vida lá fora se tornava monótona e decidimos dizer adeus.
acordei, agora na praia, com o saco a meu lado. teria sido um sonho? o mar estava agitado. no céu, as nuvens cinzentas ameaçavam molhar a areia das dunas ainda antes das ondas, que batiam com força nas rochas a limitar a pequena baía. um único pensamento me atravessou a mente... o que era realmente monótono não era a vida que todos levavam. era o meu sofrimento, a minha dor... era habitual não conseguir o que queria... era habitual separar-me de quem realmente gostava.
gritei até gastar a minha voz. quis desprender-me de mim.
num instante, corri para as ondas... e mergulhei!
marta, fevereiro 2002
nem queria acreditar que, num dia de primavera como aquele, fosse eu a única pessoa na praia, mas nem sequer me dei ao trabalho de procurar uma razão para tal. apenas tentei uma abstracção total... não consegui. acho que, por muito que nos apeteça, não somos capazes de deixar de pensar, porque isso significaria pensar em nada e o nada já é alguma coisa. então, pensei no nada e quando me cansei, abri o saco e olhei para tudo o que tinha. um diário (nunca consegui arranjar-lhe outro nome, o que fazia jeito, pois só escrevia quando me dava para isso... mas já nem isso me interessava), cartas e textos de pessoas que me tinham marcado, curiosamente desaparecidas, doentes ou longe demais para poder estar com elas. também tinha levado a máquina fotográfica, aquela companhia que me permitia registar os momentos sublimes com os quais me deleito e que, posteriormente, sou incapaz de relembrar.
pintava e desenhava, mas naquele dia não levei tintas, nem pincéis, nem folhas vazias, nem caneta! tinha-me arrependido de ter acabado com as lições de piano, de modo que, ao que parece, tinha desistido das minhas próprias mãos. dava-me aflição só de olhar para elas e pensar serem impossíveis de voltar a tocar, e por isso de escrever, ou desenhar... ironicamente, tinha levado algumas pautas. músicas capazes de me fazer mergulhar no meu mundo e sonhar... sonhar muito. contemplei-as e soei todas as notas como se o piano fosse eu e querendo acreditar que duas mãos não conseguiriam tocar melhor que a minha voz (que importância tinham duas simples mãos, afinal?). a minha voz, porém, desafinava... levantei-me e continuei a cantar. dancei, dancei sem parar. dei voltas, muitas voltas. com os braços e a cabeça apontados para o céu, como era livre, eu! misturei-me com as luzes do pôr-do-sol e caí, de tão embriagada. voltei a levantar-me, mergulhei então os pés, cantei, rodopiei, mergulhei os joelhos, as pernas, cantei, as mãos, a barriga, cantei, os seios, os ombros, cantei, o pescoço, a boca, o nariz, os olhos, o cabelo, cantei, nadei, cantei, mergulhei mais ao fundo, cantei,nadei, nadei, às escuras, mergulhei sem parar, a sonhar,a cantar, a dançar.
acordei, pousada em plantas verdes e violeta, que se moviam lentamente com o vento...o vento? azul?! reparei então num peixinho amarelo a sair por um dos corais. corais? agarrei-me ao pescoço e tentei uma fuga ao impossível tornado possível, mas respirava mesmo... no fundo do mar! estava tudo tão puro, tão equilibrado, tão meu!
- olá! - virei-me, surpreendida. uma figura masculina olhava-me, calma, elegante. era azul, mas a julgar pela forma, humana, também. um rapaz. transmitia-me paz, paz como eu nunca sentira.
-olá... - respondi. mostrou-me uma fracção de uma fotografia. observei-a e consegui decifrar uma mão amarelada a apanhar um bocado de uma fotografia, entregue por uma mão azul. entrei em pânico por dentro, mas como as coisas começassem a parecer normais por mais estranhas que fossem, limitei-me a seguir a acção que aquela imagem me pedia. toquei-lhe no azul, suave, os meus olhos olharam os seus, imensos. um formigueiro percorreu-me dos pés à cabeça. comuniquei com ele, mas não falava, não escrevia... apenas sentia. ele, ele sentia-me também.
mostrou-me os seus textos, mostrou-me desenhos, mostrou-me fotografias tiradas por ele... por mim. mostrou-me cartas de pessoas desaparecidas, doentes ou longe demais para poderem estar com ele. mostrou-me pautas musicais e um piano. tocou. toquei. tocámos. e só então soltei as minha mãos. explicou-me que o mar exprimia o seu estado de espírito... e eu, que nunca o tinha sabido tão belo! explicou-me também que, em breve, eu teria que partir, porque alguém tinha criado cada coisa no seu lugar e, a julgar pelo nosso passado, ambos estávamos condenados a ficar sós... aceitei. entretanto, aproveitámos para passear. percorremos o fundo do mar, dançámos, cantámos, escrevemos, desenhámos, rodopiámos. e o mar, sempre calmo. reparámos, certo dia, que a vida lá fora se tornava monótona e decidimos dizer adeus.
acordei, agora na praia, com o saco a meu lado. teria sido um sonho? o mar estava agitado. no céu, as nuvens cinzentas ameaçavam molhar a areia das dunas ainda antes das ondas, que batiam com força nas rochas a limitar a pequena baía. um único pensamento me atravessou a mente... o que era realmente monótono não era a vida que todos levavam. era o meu sofrimento, a minha dor... era habitual não conseguir o que queria... era habitual separar-me de quem realmente gostava.
gritei até gastar a minha voz. quis desprender-me de mim.
num instante, corri para as ondas... e mergulhei!
marta, fevereiro 2002


5 Comments:
At 9:56 a.m.,
éme said…
sim... eu li! sei que é muito extenso, mas gostava que lessem. secalhar é melhor que coisas como o DestaK e a "Quinta" (já todos chamam assim...maravilha da cultura). e se em vez de decorarem a pimbalhada toda, decorassem isto??! tb n queria... estão a ver?! n tou a pedir demais! uma pessoa já n pode por um texto fora das margens, já não o leem... que coisa!
At 3:53 a.m.,
Anónimo said…
ah pois! falam falam, e não os vejo a fazer nada, fico chateado, com certeza que fico chateado!
gostei. bjo*
At 7:10 a.m.,
Anónimo said…
...e quando me mostras algumas das tuas fotos?
At 12:48 p.m.,
éme said…
eu sabia!
o pessoal tá a desidratar muito depressa!
isto tá a ficar uma grande seca!
ahhhhhhhh, que humilhação!
fotos... estou a espera d chegar a vrsa. na escolinha não deixam downloadar o programa p por fotos.
bem... e a partir de amanhã, se me quiseres ver, nem vais precisar de fotos... tou de carne (muita) e osso a 2 minutos de distância!
hehehheheheeh
At 1:39 p.m.,
éme said…
gostava que tivessem comentado mais este texto... tb o tenho em inglês (tive que traduzir): posso postá-lo... se acharem que é melhor, hm? =P tou a brincar. mas gostava de mais comments aki...
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